quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Desmembrado




 Dez, vinte, trinta, quarenta gotas. Açúcar, acidulante. Glicerina vegetal. Nicotina. Um quarto escuro e gelado. Um cachorro aos meus pés. O tórax escavado, destampado, irrompendo agonia, tormento, desencanto. Ira. 

O estômago castigado, dolorido, operando dobras e ânsias que vomitam o amor enjeitado. 

Todo o amor tão nutrido e agraciado, contudo refugado. A devoção e o desvelo, repugnados.

A rasteira em tempo algum esperada, rompeu-me os ossos, moeu-me as carnes, demoliu a alma. E os sonhos, todos mortos, que agora apodrecem dentro de mim, e fora, e em todos os lugares.

Os olhos consumidos na peleja de alcançar alguma coisa, qualquer coisa que se perdeu, e que só existia e resistia dentro de mim.

Desnorteada e consumida pelo ardor de ter estado em estado de fantasia. Um delírio. A utopia de ter alcançado um norte e ter sido desarrimada pelo navio, que nunca chegou a navegar. Esteve continuamente encalhado na areia. Despovoado, desmembrado, faltoso e só. 

18 de dezembro de 2024. 03:33 do amanhã.