terça-feira, 3 de maio de 2022

O som do silêncio.


Eu queria, por apenas um minuto, que cessasse todo esse barulho que jorra de dentro de mim e se fizesse silêncio. Eu clamo, apenas por um único minuto de nada. De um completo nao-pensar, não-querer, não-sentir. A flor da pele dói, e pede descanso. 

Mas onde? No teu peito? Nos teus olhos, que me trazem ainda mais barulho? Na tua boca, que desorganiza tudo e tudo ainda mais. No teu não velado, calado, na tua falta de dizer. No teu silêncio. 

No desejo que me nega, se nega, e me faz deslizar pelas palavras que ouvi (?) da tua boca pequena. Boca que me cala, e grita. No umbigo do meu eu, que vaga em busca de si. De ti. Te (me) procurando pelas esquinas, tonta, tola, torta. Perdida. 

Apenas mais um nunca.



Não há laços entre nós. 

Nada restou. Eu, restei. 

Nem mesmo uma sombra vaga de qualquer tipo de amor. Eu, amei.

Não há saudade, desejo ou ilusão. Eu, sonhei.

Não há dor, nem mesmo uma lembrança permaneceu. Eu, fiquei.

Não há choro nem desespero. Só o meu rosto lavado. Salgado.

Apenas um mofo se instala e toma conta do pouco que fomos, não fomos. Eu, sou.

E esse gosto metálico tomando conta dos dias, inundando meus olhos que buscam teu vulto, mãos que tateiam na penumbra teu fantasma que me assombra, me espreita pelas esquinas da cidade vazia, me cansa, me cala, e me condena a lembrar o que nunca sequer viveu.