quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Desmembrado




 Dez, vinte, trinta, quarenta gotas. Açúcar, acidulante. Glicerina vegetal. Nicotina. Um quarto escuro e gelado. Um cachorro aos meus pés. O tórax escavado, destampado, irrompendo agonia, tormento, desencanto. Ira. 

O estômago castigado, dolorido, operando dobras e ânsias que vomitam o amor enjeitado. 

Todo o amor tão nutrido e agraciado, contudo refugado. A devoção e o desvelo, repugnados.

A rasteira em tempo algum esperada, rompeu-me os ossos, moeu-me as carnes, demoliu a alma. E os sonhos, todos mortos, que agora apodrecem dentro de mim, e fora, e em todos os lugares.

Os olhos consumidos na peleja de alcançar alguma coisa, qualquer coisa que se perdeu, e que só existia e resistia dentro de mim.

Desnorteada e consumida pelo ardor de ter estado em estado de fantasia. Um delírio. A utopia de ter alcançado um norte e ter sido desarrimada pelo navio, que nunca chegou a navegar. Esteve continuamente encalhado na areia. Despovoado, desmembrado, faltoso e só. 

18 de dezembro de 2024. 03:33 do amanhã.

quarta-feira, 10 de abril de 2024

O Eu (rompido).




 Ninguém será capaz de descortinar a minha agonia, nem conceber a fúria do meu pranto, ainda que visitem as minhas entranhas, de onde toda a dor escorrega, essa desolação que me toma, e faz de mim uma criatura liquefeita, inquieta, uma entidade mórbida, soturna, abatida pela fatalidade que é viver em todo o tempo, em carne viva. 

 Ninguém será capaz de perceber o meu grito por auxílio, por descanso, por um único minuto de trégua, pois eu urro pelos olhos, mas meus olhos já morreram. E meu protesto e meu pedido lhes parecem mudos. E mesmo meu silêncio parece já não dizer-lhes nada.

 Ninguém será capaz de se aperceber desse vazio, desse peito desabitado, faltoso, desacompanhado. Essa treva, essa terra abandonada, que de tanto prover, suprir e doar,  e dar vida, e amor, e cuidado, acabou-se estéril, consumida e seca, de onde brota tão somente fraqueza, ainda que me olhem e apontem: “veja como ela é forte!” Não veem senão aquilo que lhes é mais oportuno avistar.

 E se acaso fossem capazes de reparar, seus estômagos embrulhariam diante da visão de um corpo esfacelado, moído, ensanguentado por uma mente caótica, perturbada pela desgraça de ser e de sentir e recolher a tragédia do outro como fosse sua. 

 Por ter tomado pra mim o tormento de todos, desde o ventre de minha mãe, nascida da dor, nutrida pelo desprezo, constituída pelo tormento de aparições desumanas, me tornei coletora de suas injúrias, na fantasia de salvá-los de si mesmos, e deles me defender, em tempo algum consegui me encontrar. 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Insuficiente



Não há nada o que dizer. As palavras não importam mais, ainda que sangrando, nada é o suficiente. Nada basta. Nada é bom. E você luta contra monstros imaginários, mas tão reais. Você trava batalhas contra seu maior adversário. Você, seu reflexo no espelho, seu reflexo nos olhos daqueles que tanto ama, mas nada, ainda assim, nada basta, nada atende, nada preenche. Mas olha só, quem sou eu pra suprir a falta, a necessidade, a insuficiência do outro. Do Outro. Justo eu, que não me encaixo, que não me adequo, não me prendo. “Eu, tantas vezes vil.” 

Não há nada o que dizer. Não há nada mais o que dizer.