quarta-feira, 10 de abril de 2024

O Eu (rompido).




 Ninguém será capaz de descortinar a minha agonia, nem conceber a fúria do meu pranto, ainda que visitem as minhas entranhas, de onde toda a dor escorrega, essa desolação que me toma, e faz de mim uma criatura liquefeita, inquieta, uma entidade mórbida, soturna, abatida pela fatalidade que é viver em todo o tempo, em carne viva. 

 Ninguém será capaz de perceber o meu grito por auxílio, por descanso, por um único minuto de trégua, pois eu urro pelos olhos, mas meus olhos já morreram. E meu protesto e meu pedido lhes parecem mudos. E mesmo meu silêncio parece já não dizer-lhes nada.

 Ninguém será capaz de se aperceber desse vazio, desse peito desabitado, faltoso, desacompanhado. Essa treva, essa terra abandonada, que de tanto prover, suprir e doar,  e dar vida, e amor, e cuidado, acabou-se estéril, consumida e seca, de onde brota tão somente fraqueza, ainda que me olhem e apontem: “veja como ela é forte!” Não veem senão aquilo que lhes é mais oportuno avistar.

 E se acaso fossem capazes de reparar, seus estômagos embrulhariam diante da visão de um corpo esfacelado, moído, ensanguentado por uma mente caótica, perturbada pela desgraça de ser e de sentir e recolher a tragédia do outro como fosse sua. 

 Por ter tomado pra mim o tormento de todos, desde o ventre de minha mãe, nascida da dor, nutrida pelo desprezo, constituída pelo tormento de aparições desumanas, me tornei coletora de suas injúrias, na fantasia de salvá-los de si mesmos, e deles me defender, em tempo algum consegui me encontrar. 

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