A cadeira vazia
A xícara de café, vazia
O cigarro aceso, mas apenas o meu
Olhando para o lado, sinto que quase posso te ver
Não fosse essa ausência, esse vazio que deixaste, tão cheio de dor e de angústia e de uma saudade que não se pode nomear, que não se pode explicar.
Os cachorros repousam aos meus pés, junto ao meu silêncio, que grita seu nome, na certeza de que jamais vais voltar
Os carros e as pessoas e tudo ao meu redor segue passando, e a mim, que não é dada a opção de também passar, resta encher a xícara, acender mais um cigarro e observar quieta o verde do pequeno jardim à minha frente, que me lembra teus olhos pra sempre fechados, calados numa noite de medo e sangue, que continua sangrando em mim, de dentro de mim, e fora, em tudo, manchando meus passos e meus caminhos.
Sangue que jorra e deixa rastros pegajosos, diluindo meu mundo em desespero e perguntas que jamais terão respostas.
Um abismo, uma cova, uma xícara, que cheiram mais sangue, terra, fumaça e café, e um punhado de cinzas que eu insisto em guardar em um baleiro antigo, dentro de um móvel antigo, que trás o odor do tempo, na tentativa frustrada de manter a sua presença, em matéria, porque de ti, dos teus olhos e mãos e colo, foi tudo o que me restou. Um jeito débil de acessar o que sobrou de você.
