Um Fim
Passava, há muito, da meia-noite. Ela se revirava naquela cama imensa quando ouviu seus passos mal disfarçados na escada fria. Ele insistia em trabalhar até tarde, e apesar de ser a verdade, ela não podia acreditar.
Se negava a ser como suas amigas, que loucas, devastavam a privacidade do outro. Não, não podia ser assim. Não podia matar todos os poemas que leram juntos, todas as músicas, as longas tardes que dividiram, onde não existia tempo, onde o vento era sempre gentil e o sol coloria as paredes... mas isso parecia inevitável.
Fazia tempo que ela fingia dormir quando ele chegava e ele fingia acreditar que ela dormia. Os pés já não se encontravam há tanto tempo... meses intermináveis, que se arrastaram até cair no fundo de um encontro que chegava a fim. Um lindo, leve e louco encontro.
O dia mal nascia quando ela caminhou. Carregando uns poucos discos e livros, uma velha mala empoeirada por lembranças e uns olhos perdidos e encharcados.

