quarta-feira, 27 de julho de 2016

Passou


Um Fim


Passava, há muito, da meia-noite. Ela se revirava naquela cama imensa quando ouviu seus passos mal disfarçados na escada fria. Ele insistia em trabalhar até tarde, e apesar de ser a verdade, ela não podia acreditar.

Se negava a ser como suas amigas, que loucas, devastavam a privacidade do outro.  Não, não podia ser assim. Não podia matar todos os poemas que leram juntos, todas as músicas, as longas tardes que dividiram, onde não existia tempo, onde o vento era sempre gentil e o sol coloria as paredes... mas isso parecia inevitável.

Fazia tempo que ela fingia dormir quando ele chegava e ele fingia acreditar que ela dormia. Os pés já não se encontravam há tanto tempo... meses intermináveis, que se arrastaram até cair no fundo de um encontro que chegava a fim. Um lindo, leve e louco encontro.

O dia mal nascia quando ela caminhou. Carregando uns poucos discos e livros, uma velha mala empoeirada por lembranças e uns olhos perdidos e encharcados. 

terça-feira, 26 de julho de 2016

Sobre o que não cabe em mim


 Escrever muitas vezes não é fácil. É preciso arrancar do peito o que te faz angústia e transformar em  palavras tudo o que tantas vezes nem você próprio quer lembrar. Escrever é abortar todo som que      não cala dentro do peito, misturando sentimento e sal. É saber ouvir as vozes que te gritam e    desassossegam tuas horas, até que saiam. É calar no papel o que te aflige. É fazer ar pra poder  respirar, quando tudo sufoca e perde.

 Escrevo quando não posso dizer. Escrevo quando não há mais como chorar. Quando não há como  calar. Escrevo pra esquecer, pra entender, pra lavar.  Escrevo o que me tira o sono e a fome. Quando  não há calma e tudo em mim fere e incomoda.