segunda-feira, 17 de maio de 2021


 Era setembro e chovia quando ele chegou. Chovia em mim, chovia na cidade, e todas as ruas estavam vazias. 

Eu  procurei por ele, mas não esperava que fosse chegar tão cedo, e me encontrar tão desarmada, tão partida, perdida, desorientada (confesso que talvez sempre estive assim).

Ele era o menino mais bonito do lugar, e eu... bom, eu era apenas eu, buscando me encontrar. Seu sorriso aberto abriu em mim mais um buraco, e eu sabia desde o início que não haveria fechadura que fosse ser capaz de me encerrar.

Houve por alguns momentos encaixes perfeitos, mas o dia amanhecia e lá estava eu, sozinha. Peito aberto e lágrimas nos olhos. Ele queria o mundo, e eu só queria ficar. Ele me parecia tão forte e determinado, tão alheio às dores desse lugar, tão imune aos sentimentos... Até que um dia olhei bem no fundo dos seus olhos e o que vi foi um menino.

Um menino como tantos outros. Carente, impotente diante de tantas coisas, fugindo desesperadamente da dor e querendo ser amado. Mas não por mim, e sim por todos ao seu redor. Ali eu vi a sua fraqueza. Ele usa as armas que têm, já eu ando completamente desarmada, sempre construindo pontes e me atirando à correnteza.

E foi o fim. O fim do que nunca começou. Ele com seus olhos voltados para si e eu observando um universo de possibilidades, que incluía nós dois, mas nós dois nunca existiu. A não ser em mim. A não ser em mim.

Bárbara Camozzato 





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