Que bom que você teve medo. Que foi covarde, e resolveu fugir. Que você foi exatamente o oposto de mim. Que não se permitiu. Você, que fala de não haver sentido em abrir a porta se for se recusar a entrar. Que esperou tanto tempo por esse sabor de café, e quando encontra, derruba as xícaras, queimando tudo de bom que poderia ter sido. Tão perdido dentro de si, incapaz de enxergar o bom, o óbvio, e sequer encontrando palavras para dizer o que sente. Fazendo as mesmas escolhas, repetindo os mesmos padrões, arrastando correntes, sentindo pena de si mesmo. Com suas desculpas patéticas. Patético.
Que bom que você teve medo do amor, do afeto, do querer, daquilo que você me disse que estava buscando, profundidade em meio a tanta gente rasa e vazia, e que fugiu de mim. Eu não sou para os fracos, para os inseguros. Pois assim não arrastou mais meu tempo, nem transformou minha vida no seu melodrama, na sua narrativa frustrada, sua novela de quinta categoria. E me poupou de ser arrastada pra dentro da sua confusão, sua desordem.
Não, você não é caos. Não continue usando as palavras erradas. O caos é o que impulsiona o surgimento da vida, não da apatia. É um estado de completa desordem que viabiliza os encontros, ocorre em todo lugar, o tempo todo, e permite as confluências da vida e dos sujeitos.
Caos, do termo grego khínein, “que significa abrir-se, entreabrir-se”. Uma abertura, uma fenda, um abismo, portanto profundo, e que requer bravura para ser encarado. Tudo o que você não tem, tudo o que você não é.
De acordo com Hesíodo, um dos primeiros filhos do Caos é o desejo, capaz de superar qualquer outra coisa. E é pela potência do desejo que os deuses se uniram para parir outros deuses, deuses da escuridão que dão origem à luz. E você segue escolhendo fixar o seu olhar para as trevas, ignorando o amanhecer.
Você não é o Caos, posto que não banca seus próprios desejos, não transmuta isso em nada, não cria, não converte, não transfigura, e prefere seguir surdo e estranho ao que tem de bom ao seu redor. E sequer encontra capacidade pra por no papel a sua dor. Mártir de si mesmo. Algoz da sua própria insatisfação, do desgosto e do dissabor que determinou cultivar.
Em uma plena quarta-feira, sob o sol das duas da tarde, dançávamos abraçados no meio da rua, e você se despedia me estendendo as mãos. E no sábado me descartava, como um poema mal escrito em folha de papel parco, que se decide amassar e jogar no lixo.

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