Com o trotar dos anos, esses pequenos demônios desesperados que nos consomem a vida, passamos a ver tudo de uma maneira tão diversa daquela da aurora de nossos dias, tão modificados por esse louco passar do tempo, que já não nos resta muita paciência pra coisas banais.
As velhas piadas perdem a graça, as conversas vazias não nos atraem, os sorrisos forçados nos causam náuseas, e deixamos de tentar agradar a plateia, abandonando na indiferença aquela necessidade de nos encaixar em tudo, de fazer parte de turmas, e tribos, e de ocupar, risonhos e abobados, as mesas de bares, sentados com completos desconhecidos que falam e falam e falam bobagens sem fim.
Eu nunca fui de muitos "amigos", sabe? Nesses quase quarenta que me invadem repentinamente, sem eu ter me dado conta de que cheguei à metade de uma vida curta, foram tão parcas as vezes que me reconheci no outro. Que realmente me conectei a alguém.
Hoje vejo quase tudo e quase todos repletos de seus vazios, e contesto, decepcionada e porque não dizer, amargurada, que eles são felizes assim, com suas fotos e selfs e legendas feitas de oco, todos eles e elas, iguaizinhos, cara, roupa e penteado. Sorrisos forçados. Todos anestesiados, inconscientes, bêbados, drogados, abestalhados.
Eu me questiono, claro: estarão todos eles certos, e eu, errada e perdida em um mundo que não me pertence, do qual nunca fiz parte?



