terça-feira, 29 de julho de 2025

“A solidão é fera…”


 Eu me sinto sozinha. Sim, me sinto sozinha, e não posso nem preciso negar essa solidão que me invade, arrastando tudo, entre todos, pelas esquinas da cidade. Busco entre lugares e coisas e pessoas alguma coisa que aplaque esse vazio, vazio ao qual já deveria ter me acostumado, afinal, eu sempre fui só.

Não, não, longe de mim vir aqui dizer a vocês que é impossível ser feliz só. Mas a minha solidão “é fera, a solidão devora”. 

Não adianta, os discursos não adiantam pra mim. São vazios também, como praticamente tudo. Vazio cheio de dor. E é sobre dor que escrevo.

De viver, e viver, passando o tempo pra passar pela vida.

Esperando sempre algo que não vem, por que não vem? Será que sou eu, essa criatura mesquinha, que não labuta o suficiente? Me falta. Algo falta, sempre vai faltar, por mais que eu corra e corra e corra atrás desse resquício de vida que me resta. Vida?

O que eu busco tanto pra preencher esse buraco, onde vive, do que se alimenta?

É, as vezes eu ainda posso rir. Tenho sentindo falta de tantas coisas. Sei que terei tantas coisas ainda pela frente para sentir essa privação, essa omissão de todos os lugares em que estive e todas as pessoas que transitaram pela minha loucura. Algumas que marcaram tanto de tão bom, outras que devastaram florestas, atearam fogo ao universo. Até aqui tenho sobrevivido.

Me falta o gosto do café. O cheiro, a voz que chamava. Minha fantasia mais primordial. Meu conceito, minha ideia, meu ideal. Há poucas verdades nessas nossas trajetórias, mas duas são reais (e as que preferirem eleger pra vocês). Amor e escolhas. 

Mas olha só, daí vem outra verdade. Posto que não é tudo que depende de nós, há de se escolher suas batalhas. É possível vencer a guerra? A lida de todos os dias? 

Péra, achei mais uma verdade aqui (plena de razões).

Mãe, depois que você se foi, o mundo mudou de uma maneira tão estranha que eu não me reconheço mais nele, e você sabe que antes de você partir, bem, eu já me sentia, é, meio assim. É difícil sem você. Por isso além de amor, eu carrego tantos outros fragmentos de sentimentos, que às vezes me esqueço de respirar.

Enfim. Já voltei a mim mesma, a tola sentimental. Uma rocha, que se molda com as ondas do mar. Cria peças arredondadas e outras contusas. Eu sou aquela que sobreviveu.

“A mentira corre metade do mundo até que a verdade a alcance e vista seus sapatos.”


quarta-feira, 9 de abril de 2025

De mim. Relato de um (?) diagnóstico.

Minha vida é sempre essa constante dor latente, essa eterna montanha russa de sentimentos, bombardeio de fragmentos de ilusões e incertezas.

Minha vida é essa inconstância, essas esquinas escuras, medo do espelho, uma fúria incontrolável que não consigo, ainda que tente, lançar fora do meu peito pesado, angustiado, repleto de dúvidas e de paixões. Frio e calor.

A fumaça que jogo voa etérea e carregada pelos estilhaços da minha alma machucada por minhas próprias mãos pesadas. Ásperas.

Minha vida é esse eterno devaneio, desvairada, mal iluminada pelo verde dos meus olhos, olhos embaçados que tentam iluminar o teu caminho.

Minha vida é sempre um jogar fora, jogar sonhos, brincar de ilusão, ideias perdidas, ideais partidos, despedidas, reencontros tristes daquilo que nunca encontrei. 

Estrada enevoada, tempestades onde me lanço cada vez mais ao meio, tropeço e sigo caindo, levantando, caindo, cada vez mais perdida de mim.

Minha vida tem sido essa intensidade, uma imensidão de tudo viver, tudo provar, tudo querer, tem sido essa nada sobrar no final. Tão somente um corpo de mulher mais cansado, uma mente exausta que não se cabe. Apenas mais um tropeço no meio do caminho. Os anos multiplicando-se deixando marcas que pra sempre serão lembradas, posto que vistas na carne.

Porque a névoa com que tento cobrir meu passado e meu futuro não é forte o suficiente quanto a força dos fantasmas que assombram o vazio que carrego no peito. E o desejo de mudar não é maior que a sede e a revolta do meu modo de passar, estúpido jeito meu de escolher sempre a parte mais difícil. E minha busca pela paz que não ouso encontrar não é maior que a guerra que sou.


Texto escrito em 12 de junho de 2001. Seguimos as mesmas Bárbaras.

domingo, 9 de março de 2025

Estrambólico



É impressionante a maneira que você escolhe ficar cego. Permanecer mudo e surdo diante do mundo. Você não permite que nada te alcance, e isso é tão incompreensível pra mim, que tenho esses olhos imensos e famintos, e essas orelhas grandes e atentas. Agora tão estranho, esquisito, estrambólico. Eu tão boba, te achando em mim, querendo me encontrar em você. Tolice. 
É, de fato, de bobo você não tem nada. Mas, de perdido, ainda mais do que eu.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Repara no que eu não digo

 


Entre lágrimas, risos e suor, encontros, desencontros, reencontros e despedidas. Luz e sombra. Chuvas torrenciais que me alagam por todos os lados, sol que me escalda, águas que me lavam, dor e saudade, fantasmas, mentiras, desencantos, desenganos, olhos borrados no espelho, poemas mal escritos, músicas tristes. Cachorro, periquito, papagaio.

Entre desejos e escolhas, gostos e desgostos, carne retalhada, ossos moídos, distorções e dissabores. Livros empoeirados, discos e memórias roubadas, o armário vazio, a casa vazia, no barulho do silêncio, cigarro aceso, incêndios e febre. O verde daqueles olhos que nunca mais irão brilhar pra mim, o cheiro do café que só ela sabia fazer, enquanto sua voz me convidava pra viver, eu morro e ressuscito  todos os dias. Pra retornar a morrer, e a viver.

No fim, apenas mais uma tola sentimental.

“De xícara em xícara eu vou me afogar”.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

“Eu que não fumo pedi um cigarro, eu que não amo você”



 Que bom que você teve medo. Que foi covarde, e resolveu fugir. Que você foi exatamente o oposto de mim. Que não se permitiu. Você, que fala de não haver sentido em abrir a porta se for se recusar a entrar. Que esperou tanto tempo por esse sabor de café, e quando encontra, derruba as xícaras, queimando tudo de bom que poderia ter sido. Tão perdido dentro de si, incapaz de enxergar o bom, o óbvio, e sequer encontrando palavras para dizer o que sente. Fazendo as mesmas escolhas, repetindo os mesmos padrões, arrastando correntes, sentindo pena de si mesmo. Com suas desculpas patéticas. Patético. 

Que bom que você teve medo do amor, do afeto, do querer, daquilo que você me disse que estava buscando, profundidade em meio a tanta gente rasa e vazia, e que fugiu de mim. Eu não sou para os fracos, para os inseguros. Pois assim não arrastou mais meu tempo, nem transformou minha vida no seu melodrama, na sua narrativa frustrada, sua novela de quinta categoria. E me poupou de ser arrastada pra dentro da sua confusão, sua desordem. 

Não, você não é caos. Não continue usando as palavras erradas. O caos é o que impulsiona o surgimento da vida, não da apatia. É um estado de completa desordem que viabiliza os encontros, ocorre em todo lugar, o tempo todo, e permite as confluências da vida e dos sujeitos. 

Caos, do termo grego khínein, “que significa abrir-se, entreabrir-se”. Uma abertura, uma fenda, um abismo, portanto profundo, e que requer bravura para ser encarado. Tudo o que você não tem, tudo o que você não é. 

De acordo com Hesíodo, um dos primeiros filhos do Caos é o desejo, capaz de superar qualquer outra coisa. E é pela potência do desejo que os deuses se uniram para parir outros deuses, deuses da escuridão que dão origem à luz. E você segue escolhendo fixar o seu olhar para as trevas, ignorando o amanhecer. 

Você não é o Caos, posto que não banca seus próprios desejos, não transmuta isso em nada, não cria, não converte, não transfigura, e prefere seguir surdo e estranho ao que tem de bom ao seu redor. E sequer encontra capacidade pra por no papel a sua dor. Mártir de si mesmo. Algoz da sua própria insatisfação, do desgosto e do dissabor que determinou cultivar. 

Em uma plena quarta-feira, sob o sol das duas da tarde, dançávamos abraçados no meio da rua, e você se despedia me estendendo as mãos. E no sábado me descartava, como um poema mal escrito em folha de papel parco, que se decide amassar e jogar no lixo. 


domingo, 16 de fevereiro de 2025

Coragem, o cão covarde

 


Eu sinto que quis te dar tudo, e você não quis nada. Que tudo? Eu não teria nada a mais pra te dar senão amor, carinho, cuidado. Te faria rei. Mas você não quis encarar. E eu também não. Porque na verdade, “tudo o que eu posso te dar é solidão com vista pro mar…”

E que sigam os caminhos. 

As águas geladas das cachoeiras ficarão para outra vida, outro amanhã. Quando você me colocará na garupa da sua moto, e simplesmente poderemos voar. Confesso, achei que isso aconteceria, ao menos que por um momento. Mas olha só, quão maduros (ou covardes somos, e sei que você veria a ironia agora nos meus olhos). Nem a estrada pegamos juntos. E cada um decidiu seguir a sua.

Eu sei da minha potência. E paixões platônicas são exatamente isso. Ingênuas, nada mais que um ideal.

O que diria Platão diante de nós? Provavelmente daria risada. E fim.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Lembra-te

 


Lembra-te sempre da inconstância da vida. É ela que nos ensina. Alguma razão há de ser a nossa existência, e só posso pensar que essa razão é aprender. Pra sermos melhores aqui, nesse lugar que chamamos de casa. Melhores conosco, melhores com o outro, melhores com a vida. 

Pra sermos melhores na arte que é amar, compartilhar, e ter a capacidade de se reerguer, não importa o tamanho da queda. E elas virão. Mas enquanto houver um motivo que nos faça levantar, ficaremos de pé. E aprendendo. A celebrar a vida e todas as pequenas maravilhas que ela nos proporciona nos intervalos altos dos declives.

É isso que desejo pra ti. É isso que desejo pra nós. 

Que você tenha a coragem fundamental pra enfrentar a queda e a força necessária pra se levantar. 

Que você tenha olhos doces e atentos pra apreciar a vida e mãos firmes pra mantê-la na flutuação.

Que não lhe falte saúde pra aproveitar os teus melhores dias, e paz e serenidade pra responder às tempestades. E que não lhe falte sabedoria pra distinguir o que é chuva e o que é vendaval, posto que chuvas podem chegar pra limpar. A casa, o chão, a alma.

Que você possa ter paciência com os tolos e os ignorantes, pois eles não se ausentam dos nossos caminhos. E que você saiba oferecer mansidão ao teu coração, pra que seja capaz de não permitir que eles lhe roubem a paz.

Que você saiba lidar com a falta e a solidão, e que possa se preencher de si mesmo nas ausências 

Que a paixão seja uma frequentadora assídua na tua vida, ainda que mutável. É ela que alimenta nossos sonhos, e são os sonhos que sustentam o nosso caminhar.

Que você se permita mudar. Pois nossas raízes não são fincadas no solo, mas sim no cosmos, e é justamente a nossa capacidade de nos transformar que faz de nós humanos.

E que você seja cada vez mais diverso, metamorfoseado, iluminado, múltiplo e humano.

E que você possa um dia, ainda que por um segundo, ver-se através do meu olhar. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Dissabor

 


Eu me sento aqui e sinto essa dor sem medida, na pele, na carne, nos ossos, crua, escorrendo por toda a casa, saindo pelo quintal, encontrando todas as ruas da cidade. Sentindo sem nenhuma fuga, nenhuma droga pra anestesiar, nem remédio ou alguém pra conversar. Apenas eu, deixando despencar pelos olhos e pelos dedos essa coisa que não tem nome, que não tem entendimento e não cabe em lugar nenhum.

Caminhar por essa dor, concebendo a sua violência e envergadura, compreender como ela toma conta de cada poro e cada espaço de mim, em estado completamente desperto, lúcida de como ela me arrasa, me arrasta, me aniquila, é entrar em desatino estando consciente.