A chuva constante que cai faz com que eu sustente a fantasia de que o melhor lugar que eu poderia estar é exatamente onde me encontro agora, há dias, quase que na mesma posição. Mal tenho forças pra me mexer. Dia e noite se confundem, mas apenas lá fora. Aqui mantenho a penumbra, e a temperatura baixa. O quarto gelado, um limbo criado por mim pra me abrigar da dor que me espera atrás da porta fechada. Dentro desse poço confortável, sinto o brilho da vida se esvair aos poucos dos meus olhos, do meu corpo, da minha carne dolorida, ainda que a cama seja macia.
Estranhamente, não me sinto só. Tenho meus pensamentos incessantes como companhia, mas aos poucos até eles vão escorregando pelo vão da janela, me deixando cada vez mais vazia. Talvez seja essa a intenção. Me esvaziar de tudo, de todos, já que a cada dia, noite, tarde, tudo e nada fazem o menor sentido.
Os remédios na mesa de cabeceira, pra dormir, pra acordar, pra viver, pra respirar, pra matar as bactérias que se multiplicam em meus órgãos, pra cessar o ataque do meu próprio corpo contra mim, pra regular meus pensamentos, calar meus delírios, cessar o pânico, se misturam aos livros que não tenho vontade de ler. As memórias que não quero trazer à tona, pois mesmo as mais alegres não são capazes de me arrancar um sorriso. Eu não quero lembrar. Nem de mim, nem de ninguém.
Eu fui forte por muito tempo, e a única coisa que quero fazer agora é dormir, já que a morte ainda não é possibilidade, ainda que esteja presente nos cantos da casa, e me faça pensar como seria bom simplesmente nunca ter existido.



