quarta-feira, 16 de março de 2022

Limbo

 


A chuva constante que cai faz com que eu sustente a fantasia de que o melhor lugar que eu poderia estar é exatamente onde me encontro agora, há dias, quase que na mesma posição. Mal tenho forças pra me mexer. Dia e noite se confundem, mas apenas lá fora. Aqui mantenho a penumbra, e a temperatura baixa. O quarto gelado, um limbo criado por mim pra me abrigar da dor que me espera atrás da porta fechada. Dentro desse poço confortável, sinto o brilho da vida se esvair aos poucos dos meus olhos, do meu corpo, da minha carne dolorida, ainda que a cama seja macia.

Estranhamente, não me sinto só. Tenho meus pensamentos incessantes como companhia, mas aos poucos até eles vão escorregando pelo vão da janela, me deixando cada vez mais vazia. Talvez seja essa a intenção. Me esvaziar de tudo, de todos, já que a cada dia, noite, tarde, tudo e nada fazem o menor sentido. 

Os remédios na mesa de cabeceira, pra dormir, pra acordar, pra viver, pra respirar, pra matar as bactérias que se multiplicam em meus órgãos, pra cessar o ataque do meu próprio corpo contra mim, pra regular meus pensamentos, calar meus delírios, cessar o pânico, se misturam aos livros que não tenho vontade de ler.  As memórias que não quero trazer à tona, pois mesmo as mais alegres não são capazes de me arrancar um sorriso. Eu não quero lembrar. Nem de mim, nem de ninguém. 

Eu fui forte por muito tempo, e a única coisa que quero fazer agora é dormir, já que a morte ainda não é possibilidade, ainda que esteja presente nos cantos da casa, e me faça pensar como seria bom simplesmente nunca ter existido.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Ausência


Ando pelas esquinas desnorteado, aturdido, envergonhado.

À procura de palavras que definam você, em mim. Pra mim. Por mim.

Sua ausência 

Sua presença 

Sua lembrança.

Eu esqueço as mortes

Esqueço as dores

O cárcere, o câncer, a causa.

Só me interessa saber.

Ontem, diante da sua imagem, por fim eu entendi. 

Você faz com que eu me sinta miserável, indigente, deplorável. 

Escasso. 

Patético.

Não sei o motivo, a razão, o porquê.

Nada deve ser bom. 

Esse (des)enlace, esse silêncio, esse desdém. (Des)apreço. (Des)amor. (Des)alinho.

Que permaneço. 

Estaciono. 

Semeio e alimento.  

Atravessado, sigo deserto de ti.

Angústia e Vida


  Veja bem, eu não sou tão forte assim. Eu sou apenas uma mulher. A força me encontra, mas muitas vezes eu simplesmente faço aquilo que é preciso. Eu resisto, me atrevo, combato em lutas hercúleas, mas também me desespero, e desmorono exaurida. Choro, mas isso quase ninguém vê. E quando amanhece, as lágrimas secam e eu sigo, cometida pela ânsia de querer salvar o outro dele mesmo, como quem ataca moinhos de vento. Que ironia, eu que não encontro maneira de sequer amansar o dragão que faz morada e ressoa em meu peito, e me despedaça, deixando tudo em carne viva.

Eu, que tantas vezes preciso apenas de um pouco de quietude. Mansidão. Silêncio de mim, e sossego daquele olhar que me consome.

Que ao fim de tudo, da noite, do pranto, do amor, mesmo que tomada por angústia, eu possa ser preenchida também de vida. Que depois de cada consumição, as partículas do meu ser possam se reagrupar e sussurrar uma lição, ainda que árdua, aos meus ouvidos atentos, ainda que exaustos. E que eu não perca a capacidade de sentir, ainda que desmedida, de amar, ainda que vulcânica, e de  apreciar a vida, ainda que em carne viva.


segunda-feira, 16 de agosto de 2021



E a vida segue seu curso. Tudo e qualquer coisa, ao seu tempo. Meu tempo. Seu tempo. Que tempo? Esse que criamos para contar nossos dias sob esse sol. A contagem simbólica da nossa existência, mais uma das fantasias tantas vezes necessárias a que nos agarramos. Para existir. Para estar. Para ser. E sobreviver.

Pedaços. Que vamos encontrando no caminho e que vão fazendo borda para cada um desses fragmentos de nós, na busca imaginária pela totalidade. Pedaços de um todo desintegrado em partículas incontáveis que fazem parte de nós. Do que somos. Caminhos, desejos e escolhas.

terça-feira, 27 de julho de 2021

Consumição

 Hoje eu me alimentei apenas de mim mesma. Me saciei com minhas dores e com os amores que invento pra preencher as horas que não fazem sentido.

Tomei duas cervejas quentes, acendi alguns cigarros, e deixei a fumaça ébria tomar conta de mim. Apenas isso. Dor e poesia. Eu me consumi. E foi tudo o que pude fazer por mim.



quinta-feira, 20 de maio de 2021

Eu


 Eu ainda me preocupo com você. Eu ainda penso em você todo bendito ou maldito dia. Em algum momento do tempo, lá está você, encarnado na minha alma, encardindo meus dias. Eu ainda cismo em procurar você pelas esquinas, deixando cair pra mim alguma migalha sua. 

Mas não tem problema. Você não é o único no mundo. Há tantas possibilidades. Mesmo que apenas você tenha esse sorriso que me desgraça e esses braços que parecem me curar, há todo um universo esperando por mim, todos os dias, em cada coisa que eu faço. E esse universo é muito, mas muito maior que as migalhas que você me solta

segunda-feira, 17 de maio de 2021


 Era setembro e chovia quando ele chegou. Chovia em mim, chovia na cidade, e todas as ruas estavam vazias. 

Eu  procurei por ele, mas não esperava que fosse chegar tão cedo, e me encontrar tão desarmada, tão partida, perdida, desorientada (confesso que talvez sempre estive assim).

Ele era o menino mais bonito do lugar, e eu... bom, eu era apenas eu, buscando me encontrar. Seu sorriso aberto abriu em mim mais um buraco, e eu sabia desde o início que não haveria fechadura que fosse ser capaz de me encerrar.

Houve por alguns momentos encaixes perfeitos, mas o dia amanhecia e lá estava eu, sozinha. Peito aberto e lágrimas nos olhos. Ele queria o mundo, e eu só queria ficar. Ele me parecia tão forte e determinado, tão alheio às dores desse lugar, tão imune aos sentimentos... Até que um dia olhei bem no fundo dos seus olhos e o que vi foi um menino.

Um menino como tantos outros. Carente, impotente diante de tantas coisas, fugindo desesperadamente da dor e querendo ser amado. Mas não por mim, e sim por todos ao seu redor. Ali eu vi a sua fraqueza. Ele usa as armas que têm, já eu ando completamente desarmada, sempre construindo pontes e me atirando à correnteza.

E foi o fim. O fim do que nunca começou. Ele com seus olhos voltados para si e eu observando um universo de possibilidades, que incluía nós dois, mas nós dois nunca existiu. A não ser em mim. A não ser em mim.

Bárbara Camozzato