segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Dissabor

 


Eu me sento aqui e sinto essa dor sem medida, na pele, na carne, nos ossos, crua, escorrendo por toda a casa, saindo pelo quintal, encontrando todas as ruas da cidade. Sentindo sem nenhuma fuga, nenhuma droga pra anestesiar, nem remédio ou alguém pra conversar. Apenas eu, deixando despencar pelos olhos e pelos dedos essa coisa que não tem nome, que não tem entendimento e não cabe em lugar nenhum.

Caminhar por essa dor, concebendo a sua violência e envergadura, compreender como ela toma conta de cada poro e cada espaço de mim, em estado completamente desperto, lúcida de como ela me arrasa, me arrasta, me aniquila, é entrar em desatino estando consciente.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Desmembrado




 Dez, vinte, trinta, quarenta gotas. Açúcar, acidulante. Glicerina vegetal. Nicotina. Um quarto escuro e gelado. Um cachorro aos meus pés. O tórax escavado, destampado, irrompendo agonia, tormento, desencanto. Ira. 

O estômago castigado, dolorido, operando dobras e ânsias que vomitam o amor enjeitado. 

Todo o amor tão nutrido e agraciado, contudo refugado. A devoção e o desvelo, repugnados.

A rasteira em tempo algum esperada, rompeu-me os ossos, moeu-me as carnes, demoliu a alma. E os sonhos, todos mortos, que agora apodrecem dentro de mim, e fora, e em todos os lugares.

Os olhos consumidos na peleja de alcançar alguma coisa, qualquer coisa que se perdeu, e que só existia e resistia dentro de mim.

Desnorteada e consumida pelo ardor de ter estado em estado de fantasia. Um delírio. A utopia de ter alcançado um norte e ter sido desarrimada pelo navio, que nunca chegou a navegar. Esteve continuamente encalhado na areia. Despovoado, desmembrado, faltoso e só. 

18 de dezembro de 2024. 03:33 do amanhã.

quarta-feira, 10 de abril de 2024

O Eu (rompido).




 Ninguém será capaz de descortinar a minha agonia, nem conceber a fúria do meu pranto, ainda que visitem as minhas entranhas, de onde toda a dor escorrega, essa desolação que me toma, e faz de mim uma criatura liquefeita, inquieta, uma entidade mórbida, soturna, abatida pela fatalidade que é viver em todo o tempo, em carne viva. 

 Ninguém será capaz de perceber o meu grito por auxílio, por descanso, por um único minuto de trégua, pois eu urro pelos olhos, mas meus olhos já morreram. E meu protesto e meu pedido lhes parecem mudos. E mesmo meu silêncio parece já não dizer-lhes nada.

 Ninguém será capaz de se aperceber desse vazio, desse peito desabitado, faltoso, desacompanhado. Essa treva, essa terra abandonada, que de tanto prover, suprir e doar,  e dar vida, e amor, e cuidado, acabou-se estéril, consumida e seca, de onde brota tão somente fraqueza, ainda que me olhem e apontem: “veja como ela é forte!” Não veem senão aquilo que lhes é mais oportuno avistar.

 E se acaso fossem capazes de reparar, seus estômagos embrulhariam diante da visão de um corpo esfacelado, moído, ensanguentado por uma mente caótica, perturbada pela desgraça de ser e de sentir e recolher a tragédia do outro como fosse sua. 

 Por ter tomado pra mim o tormento de todos, desde o ventre de minha mãe, nascida da dor, nutrida pelo desprezo, constituída pelo tormento de aparições desumanas, me tornei coletora de suas injúrias, na fantasia de salvá-los de si mesmos, e deles me defender, em tempo algum consegui me encontrar. 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Insuficiente



Não há nada o que dizer. As palavras não importam mais, ainda que sangrando, nada é o suficiente. Nada basta. Nada é bom. E você luta contra monstros imaginários, mas tão reais. Você trava batalhas contra seu maior adversário. Você, seu reflexo no espelho, seu reflexo nos olhos daqueles que tanto ama, mas nada, ainda assim, nada basta, nada atende, nada preenche. Mas olha só, quem sou eu pra suprir a falta, a necessidade, a insuficiência do outro. Do Outro. Justo eu, que não me encaixo, que não me adequo, não me prendo. “Eu, tantas vezes vil.” 

Não há nada o que dizer. Não há nada mais o que dizer. 

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Quem se importa?


Tomei um resto de coragem do copo envelhecido na mesa de cabeceira e me levantei. Andei alguns passos até a cozinha, me movendo no silêncio da casa, que cheia, parece vazia, e fiz um chá. Um pouco de calor talvez caia bem nesse corpo frio. 

No peito o velho vazio, que por tão conhecido, não deveria doer-me tanto. 

Sento-me aqui fora, observando o quadro da minha vida, acendo um cigarro, e as perguntas são as mesmas perguntas com as mesmas não-respostas de todo o sempre. Após tantos anos, eu ainda não sei a resposta. Confesso que estou quase virando as costas e atravessando a rua de mim mesma, pois me cansa essa busca de lugar nenhum. 

Vai, é dor e pronto. Só dor. Dor e vazio, vazio e dor. E quem se importa de onde vem? Ninguém se importa. De que adianta ter a resposta, se eu sempre acabo tropeçando e caindo. Não faz sentido algum, nem tem que fazer. É dor. E ponto.

terça-feira, 3 de maio de 2022

O som do silêncio.


Eu queria, por apenas um minuto, que cessasse todo esse barulho que jorra de dentro de mim e se fizesse silêncio. Eu clamo, apenas por um único minuto de nada. De um completo nao-pensar, não-querer, não-sentir. A flor da pele dói, e pede descanso. 

Mas onde? No teu peito? Nos teus olhos, que me trazem ainda mais barulho? Na tua boca, que desorganiza tudo e tudo ainda mais. No teu não velado, calado, na tua falta de dizer. No teu silêncio. 

No desejo que me nega, se nega, e me faz deslizar pelas palavras que ouvi (?) da tua boca pequena. Boca que me cala, e grita. No umbigo do meu eu, que vaga em busca de si. De ti. Te (me) procurando pelas esquinas, tonta, tola, torta. Perdida. 

Apenas mais um nunca.



Não há laços entre nós. 

Nada restou. Eu, restei. 

Nem mesmo uma sombra vaga de qualquer tipo de amor. Eu, amei.

Não há saudade, desejo ou ilusão. Eu, sonhei.

Não há dor, nem mesmo uma lembrança permaneceu. Eu, fiquei.

Não há choro nem desespero. Só o meu rosto lavado. Salgado.

Apenas um mofo se instala e toma conta do pouco que fomos, não fomos. Eu, sou.

E esse gosto metálico tomando conta dos dias, inundando meus olhos que buscam teu vulto, mãos que tateiam na penumbra teu fantasma que me assombra, me espreita pelas esquinas da cidade vazia, me cansa, me cala, e me condena a lembrar o que nunca sequer viveu.