sexta-feira, 27 de outubro de 2017




Com o trotar dos anos, esses pequenos demônios desesperados que nos consomem a vida, passamos a ver tudo de uma maneira tão diversa daquela da aurora de nossos dias, tão modificados por esse louco passar do tempo, que já não nos resta muita paciência pra coisas banais. 
As velhas piadas perdem a graça, as conversas vazias não nos atraem, os sorrisos forçados nos causam náuseas, e deixamos de tentar agradar a plateia, abandonando na indiferença aquela necessidade de nos encaixar em tudo, de fazer parte de turmas, e tribos, e de ocupar, risonhos e abobados, as mesas de bares, sentados com completos desconhecidos que falam e falam e falam bobagens sem fim. 
Eu nunca fui de muitos "amigos", sabe? Nesses quase quarenta que me invadem repentinamente, sem eu ter me dado conta de que cheguei à metade de uma vida curta, foram tão parcas as vezes que me reconheci no outro. Que realmente me conectei a alguém. 
Hoje vejo quase tudo e quase todos repletos de seus vazios, e contesto, decepcionada e porque não dizer, amargurada, que eles são felizes assim, com suas fotos e selfs e legendas feitas de oco, todos eles e elas, iguaizinhos, cara, roupa e penteado. Sorrisos forçados. Todos anestesiados, inconscientes, bêbados, drogados, abestalhados.



Eu me questiono, claro: estarão todos eles certos, e eu, errada e perdida em um mundo que não me pertence, do qual nunca fiz parte?


quarta-feira, 4 de outubro de 2017



Você
Que mora na rua da minha saudade
Na vereda da minha vontade
Na sombra dos meus anseios
No véu do meu desejo
No calo da minha sede
Nas cordas do meu violão.

Você
Que me desafina a voz
Que me apressa os passos
Que me aperta a fome
Me devora o sono
Estilhaça os ossos
Esbugalha os olhos
Me cala a boca, e a voz.

Você
Que mora nas páginas dos meus livros
No espaço entre as palavras
Nos contos que não escrevi
No fundo do meu espelho.

Você
Que permanece mudo dentro daquilo que nunca terei
Que ergue paredes ausentes
Que tinge de rubro o meu chão.




De repente, amorteci.
Amorteceram alma, carne e pulsação.
Pernas e braços já não sentem
Apenas seguem
No peito oco, já não me falam mais as vozes que atormentavam.
O hoje é sempre o meu último dia.
Os olhos não se deslumbram, a alma despiu-se das ilusões.
A boca, cansada, silencia.
Não sei quem sou.
Não quero descobrir.
Desisti da luta, cansaram-me as perguntas.
Tão somente, caminho.
Pequenos passos que me levam, a cada dia, pra longe de mim.
Não sei o que me guia
Não quero descobrir.
Apenas ficar no abrir e no fechar dos olhos
Até que em um instante, se façam ocos
Inteiramente vazios.
Da minha criatura, já não sei.
E nem sinto mais alguma dor.
Vida que goteja pelos dedos.
Suporto
Tolero
Ainda resisto.
Uma sombra de mim.

Daquela que um dia eu fui e sequer cheguei a conceber.




Guarda!

Eu te guardo aqui no peito.
E te espero chegar.
Eu vejo aquela tarde de sol, e ainda sinto teu gosto na boca.
Teu cheiro na pele.
Tua alma pregada na minha.
Mãos que me lavam, braços que me sustentam.
Esse espaço entre os seus dedos...
Me chegam os teus sinais. Não entendo o que me dizem.
Se fogem, ou procuram teus olhos (meus olhos), é palavra muda em minha boca.
Vai, tira teu escudo e me descobre.
Deixa-me ver-te.
Deixa-me estar, um beijo só...
Guarda! Que foges de mim, e podes não voltar.
Não te percas na longitude da minha sombra. Não ocuparei por muito mais tempo esse lugar.

Escuta, que um dia me vou. Num fim de tarde apaixonado, um outono qualquer, outros passos, e me vou...



Alívio.
Tudo bem, você dormiu.
Eu desço pra mais uma dose, um pouco mais de fumaça.
Enquanto você sonha, não sou capaz de grudar os olhos.
E são tantas as palavras escapando que não posso sufocá-las.
Enfim, o que sou eu e estas minhas bobagens diante de tanta dor espalhada pelos cantos?
O que são minhas meras lágrimas mudas por não me aceitares quando o sangue jorra dos olhos de inocentes? Toda a tragédia humana, a despeito de você e eu.
Não é nada. Logo passa. Logo você olha pro lado e agradece pelo milagre da vida, tão mais antigo que essa imbecilidade de sentimentos medíocres que você cultiva. Ora, apenas porque se sente só.
Tão somente por essa ninharia de solidão. Alucinação de tristeza. Medíocre. Mixaria de dor.
Então acorda (?) feliz (?). Grato por mais um dia. Aliviado, pois afinal, ainda estamos vivos. Sem virtudes, utilidades ou equilíbrio. Mas vivos. Mais um dia, vivos (?).

Caminhem para a luz, pequenas crianças.


B. Camozzato

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Passou


Um Fim


Passava, há muito, da meia-noite. Ela se revirava naquela cama imensa quando ouviu seus passos mal disfarçados na escada fria. Ele insistia em trabalhar até tarde, e apesar de ser a verdade, ela não podia acreditar.

Se negava a ser como suas amigas, que loucas, devastavam a privacidade do outro.  Não, não podia ser assim. Não podia matar todos os poemas que leram juntos, todas as músicas, as longas tardes que dividiram, onde não existia tempo, onde o vento era sempre gentil e o sol coloria as paredes... mas isso parecia inevitável.

Fazia tempo que ela fingia dormir quando ele chegava e ele fingia acreditar que ela dormia. Os pés já não se encontravam há tanto tempo... meses intermináveis, que se arrastaram até cair no fundo de um encontro que chegava a fim. Um lindo, leve e louco encontro.

O dia mal nascia quando ela caminhou. Carregando uns poucos discos e livros, uma velha mala empoeirada por lembranças e uns olhos perdidos e encharcados. 

terça-feira, 26 de julho de 2016

Sobre o que não cabe em mim


 Escrever muitas vezes não é fácil. É preciso arrancar do peito o que te faz angústia e transformar em  palavras tudo o que tantas vezes nem você próprio quer lembrar. Escrever é abortar todo som que      não cala dentro do peito, misturando sentimento e sal. É saber ouvir as vozes que te gritam e    desassossegam tuas horas, até que saiam. É calar no papel o que te aflige. É fazer ar pra poder  respirar, quando tudo sufoca e perde.

 Escrevo quando não posso dizer. Escrevo quando não há mais como chorar. Quando não há como  calar. Escrevo pra esquecer, pra entender, pra lavar.  Escrevo o que me tira o sono e a fome. Quando  não há calma e tudo em mim fere e incomoda.